domingo, 30 de junho de 2013

Pausa de Moacyr Scliar

Professora  Adriana  M. das  Neves
Pensamento de Moacyr Scliar


            Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para o banheiro, fez a barba e lavou-se. Vestiu-se rapidamente e sem ruído. Estava na cozinha, preparando sanduíches, quando a mulher apareceu, bocejando:
            — Vais sair de novo, Samuel?
Fez que sim com a cabeça. Embora jovem, tinha a fronte calva; mas as sobrancelhas eram espessas, a barba, embora recém-feita, deixava ainda no rosto uma sombra azulada. O conjunto era uma máscara escura.
            — Todos os domingos tu sais cedo – observou a mulher com azedume na voz.
            — Temos muito trabalho no escritório – disse o marido, secamente.
Ela olhou os sanduíches:
            — Por que não vens almoçar?
            — Já te disse: muito trabalho. Não há tempo. Levo um lanche.
A mulher coçava a axila esquerda. Antes que voltasse à carga, Samuel pegou o chapéu:
            — Volto de noite.
As ruas ainda estavam úmidas de cerração. Samuel tirou o carro da garagem. Guiava vagarosamente; ao longo do cais, olhando os guindastes, as barcaças atracadas.
Estacionou o carro numa travessa quieta. Com o pacote de sanduíches debaixo do braço, caminhou apressadamente duas quadras. Deteve-se ao chegar a um hotel pequeno e sujo. Olhou para os lados e entrou furtivamente. Bateu com as chaves do carro no balcão, acordando um homenzinho que dormia sentado numa poltrona rasgada. Era o gerente. Esfregando os olhos, pôs-se de pé:
            — Ah! Seu Isidoro! Chegou mais cedo hoje. Friozinho bom este, não é? A gente...
            — Estou com pressa, seu Raul – atalhou Samuel.
            — Está bem, não vou atrapalhar. O de sempre - Estendeu a chave.
Samuel subiu quatro lanços de uma escada vacilante. Ao chegar ao último andar, duas mulheres gordas, de chambre floreado, olharam-no com curiosidade:
            — Aqui, meu bem! – uma gritou, e riu: um cacarejo curto.
Ofegante, Samuel entrou no quarto e fechou a porta à chave. Era um aposento pequeno: uma cama de casal, um guarda-roupa de pinho; a um canto, uma bacia cheia d’água, sobre um tripé. Samuel correu as cortinas esfarrapadas, tirou do bolso um despertador de viagem, deu corda e colocou-o na mesinha de cabeceira.
Puxou a colcha e examinou os lençóis com o cenho franzido; com um suspiro, tirou o casaco e os sapatos, afrouxou a gravata. Sentado na cama, comeu vorazmente quatro sanduíches. Limpou os dedos no papel de embrulho, deitou-se fechou os olhos.
Dormir.
Em pouco, dormia. Lá embaixo, a cidade começava a mover-se: os automóveis buzinando, os jornaleiros gritando, os sons longínquos.
Um raio de sol filtrou-se pela cortina, estampou um círculo luminoso no chão carcomido. 
Samuel dormia; sonhava. Nu, corria por uma planície imensa, perseguido por um índio montado o cavalo. No quarto abafado ressoava o galope. No planalto da testa, nas colinas do ventre, no vale entre as pernas, corriam. Samuel mexia-se e resmungava. Às duas e meia da tarde sentiu uma dor lancinante nas costas. Sentou-se na cama, os olhos esbugalhados: o índio acabava de trespassá-lo com a lança. Esvaindo-se em sangue, molhando de suor, Samuel tombou lentamente; ouviu o apito soturno de um vapor. Depois, silêncio.

Às sete horas o despertador tocou. Samuel saltou da cama, correu para a bacia, lavou-se. Vestiu-se rapidamente e saiu.
Sentado numa poltrona, o gerente lia uma revista.
            — Já vai, seu Isidoro?
            — Já – disse Samuel, entregando a chave. Pagou, conferiu o troco em silêncio.
            — Até domingo que vem, seu Isidoro – disse o gerente.
            — Não sei se virei – respondeu Samuel, olhando pela porta; a noite caia.
            — O senhor diz isto, mas volta sempre – observou o homem, rindo.
Samuel saiu.
Ao longo dos cais, guiava lentamente. Parou um instante, ficou olhando os guindastes recortados contra o céu avermelhado. Depois, seguiu. Para casa.


                                                                                                                                     Moacyr Scliar
                                                     (De O Carnaval dos Animais. Porto Alegre, Ed. Movimento, 1969.)
Inferências gerais:
Faça um breve comentário sobre a biografia do autor.
Antes de apresentar o texto para os alunos questioná-los.
1-      O que seria “Pausa”? O que significa está palavra?
2-       Esse título desperta a atenção do leitor? Por quê? O que ele sugere?
3-      Pelo título, dá para imaginar o assunto? 
Após comentários distribua o texto a todos e durante a leitura vá interrompendo-a e interagindo com os alunos através dos questionamentos citados abaixo, fazendo com que no final da leitura percebam as pausas contidas existentes durante o percurso da história.
Inicie a leitura dando continuidade até este trecho:
(A mulher coçava a axila esquerda....”Volto de noite”.) questione:
4 - Samuel diz que está indo para o escritório, porém sua mulher lhe faz uma observação dizendo que todos os domingos ele logo cedo saía. Será que realmente ele estava indo para o escritório?
Após as respostas, continue a leitura até o próximo parágrafo citado abaixo. E assim dê continuidade às próximas sequências.
- Está bem, não vou atrapalhar. O de sempre. – estendeu a chave. Samuel subiu quatro lanços de uma escada vacilante. Ao chegar ao último andar, duas mulheres gordas, de chambre floreado, olharam-no com curiosidade.  ( interrompa e questione: 3 e 4)
5 - Samuel é reconhecido pelo gerente do hotel por outro nome. Por que você acha que ele não usava o nome verdadeiro?
6-Pelo significado da palavra “Pausa” (parada), como podemos entender a atitude do personagem Samuel, quando sai de casa aos domingos para dormir em um quarto de hotel? O que ele queria?
Um raio de sol filtrou-se pela cortina, estampou um círculo luminoso no chão carcomido. (interrompa e questione)
7-Até o presente momento  de nossa leitura,em sua opinião qual era o objetivo de Samuel ao sair de casa todos os domingos de manhã, para ir dormir em um hotel? O que ele desejava?
- O senhor diz isto, mas volta sempre – observou o homem, rindo. Samuel saiu. (interrompa e questione).
8-- Samuel deixa o hotel respondendo ao gerente que não sabe se voltará no próximo domingo. O que você acredita ser o motivo maior, o qual ele não afirma que voltará no próximo domingo?
        9- Reparem nas vírgulas, pontos finais, reticências existentes no texto. Que importância essas pontuações têm para a compreensão desse conto?
     
       10- Grife as palavras desconhecidas, procure o seu significado no dicionário e anote no seu caderno.

11-O que acharam da personagem principal? Que recursos linguísticos o autor usou para lhe dar realce?
12-O autor é observador ou personagem? (foco narrativo)
13-Esse texto fez vocês pensarem? Que ideias vieram à cabeça?
14-Existe um elemento surpresa?
15-Como foi  o desfecho? Tudo ocorreu de acordo com o que você havia imaginado?
16- Em grupo, transformem  esse conto em uma  história em quadrinhos.


Referência bibliográfica
ROJO, Roxane. Letramento e capacidades de leitura para a cidadania. In: Curso EaD/EFAP. Leitura e escrita em contexto digital– Programa Práticas de leitura e escrita na contemporaneidade. 2012.
SCLIAR, Moacyr. Pausa. In: BOSI. Alfredo (Org.) Conto Brasileiro Contemporâneo. São Paulo: Cultrix, s/d. p. 275-277.

Moacyr Scliar
Nascimento: 23 de Março de 1937
Morte: 27 de Fevereiro de 2011 (73 anos)
Ocupação: Escritor
Biografia: Moacyr Jaime Scliar foi um escritor brasileiro. Formado em medicina, trabalhou como médico especialista em saúde pública e professor universitário. Sua prolífica obra consiste de contos, romances, ensaios e literatura infantojuvenil. Também ficou conhecido por suas crônicas nos principais jornais do país.

Professora  Adriana M. das Neves
Público alvo: 9º ano
Tempo previsto: 5 aulas
Tema:  “ Pausa”  - Moacyr Scliar
Objetivos: Levantar as hipóteses dos alunos a cerca do tema estudado; analisar a estrutura de um texto, buscando compreender como se organiza a sua estrutura; destacar informações importantes e transcrevê-las; releitura do texto para a produção da história em quadrinhos em grupo; compartilhar com os colegas o que aprenderam durante o estudo do texto “Pausa”.
Conteúdo: Estudo do gênero conto; elementos da narrativa; leitura do texto “Pausa”, produção em grupo de história em quadrinhos; reescrita de texto; estudo de aspectos lingüísticos.
Competências e habilidades: Identificar o efeito de sentido produzido em um texto literário, pelo uso intencional de pontuação expressiva (interrogação, exclamação, reticências, aspas etc.). Reconhecer o efeito de sentido decorrente da escolha de uma determinada palavra ou expressão. Identificar o autor do texto.

Estratégias: Leitura realizada pelo professor dando entonação à mesma e utilizado pausas durante a leitura para discutir as informações contidas no texto através dos questionamentos.
Recursos: textos impressos, lousa, sulfite ou outro tipo de material para o desenvolvimento da história em quadrinhos, dicionários.

Avaliação: interação entre os alunos e alunos-professor e produção da história em quadrinhos.

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